Além da Personalização: Quando Algoritmos Criam a Realidade

por Lilian Carvalho, PhD

 

Olá, internautas! Na minha coluna de estreia para a Exame, quero me apresentar e deixar pra vocês o que foi que o mundo digital nos deu, e o que nos tirou. Meu nome é Lilian Carvalho, e eu nasci e cresci num mundo analógico. Sem internet, sem telefone, em parte, graças à incompetência da Telesp em entregar seu plano de expansão nos anos 80 e 90 (o telefone só chegou na minha casa em 1992).

Mas, no ano do nosso Senhor 2025, o mundo é digital: há 210,3 milhões de conexões móveis ativas no Brasil, equivalente a 96,9% da população total. Ou seja, somente 3 de cada 100 brasileiros não tem conexão com o mundo digital. E dessa maioria acachapante, pasmem, a média de tempo gasto na internet são assustadoras 9 horas e 32 minutos, o que são mais horas do que um dia de trabalho padrão (8h).

E o que significa “viver no mundo digital”? Para a autora Christine Rosen, do livro “O Fim da Experiência” (tradução livre), isso significa o fim da experiência corpórea, ou seja, nós estamos vivendo uma experiência separada dos nossos corpos no mundo digital. Nem Platão poderia ter previsto que seu mundo das ideias não seria o mundo das formas ideais, mas sim um mundo distorcido no qual a realidade é criada pelos algoritmos. 

Em termos acadêmicos, o mundo digital é um estímulo supranormal (ou supernormal stimulus). Isso significa que o mundo digital  é uma versão exagerada de um estímulo natural, projetada para provocar uma resposta mais intensa do que o estímulo original para o qual o organismo evoluiu

Nessa primeira coluna, me deixem sucumbir a nostalgia um pouquinho: imaginem a Lilian de 1995, pré-internet, aos 15 anos, visitando uma cidade do litoral paulista, e buscando um sorvetinho para espantar o calorão: ela ia andar pelos quarteirões da cidade, talvez a beira da praia, e fazer a escolha baseada na experiência direta - olhar o ambiente de cada sorveteria, dar uma olhadinha no display de sorvetes, talvez pedir pra experimentar um sabor antes de comprar. A Lilian de 2025 tem um comportamento mediado pelos algoritmos: ela pode digitar no Google Maps “sorveterias em Santos”, analisar as avaliações, as notas, verificar as fotos e, ao sair de casa, já sair decidida a comprar uma casquinha de Pistache com cobertura de chocolate na franquia mais próxima da Bacio di Latte. As perguntas que ficam são: a Lilian de 2025 realmente decidiu o que comprar? Ou ela delegou totalmente o processo de decisão a um algoritmo sobre o qual ela não tem qualquer controle? 

Você, ao ler isso, pode achar que em 2025 a experiência é otimizada, ou seja, se perde menos tempo batendo perna por aí no calor da praia, mas para Rosen, para mim, e pra muitos outros que viveram e se lembram de um mundo que não era formatado pelos algoritmos, as possibilidades da vida eram infinitas. Um encontro não marcado. Bater-papo com alguém interessante que nunca se conheceria de outra forma. Uma descoberta feliz e inesperada. 

Claro, tudo isso talvez ainda aconteça na internet, mas há que se entender que os algoritmos não são como ruas. A vida real tem uma arquitetura que não muda, não é otimizada para cada usuário. Os algoritmos são mais como um ambiente de videogame: eles se adaptam e emergem da realidade de acordo com o usuário. Os algoritmos, sejam das redes sociais como das ferramentas de busca, são projetados para maximizar o engajamento dos usuários, operando dentro do paradigma da "economia da atenção". Eles priorizam conteúdos que aumentam o tempo de permanência na plataforma e a interação, utilizando sinais como:

  • Engajamento: Curtidas, comentários e compartilhamentos indicam relevância.
  • Histórico do usuário: Preferências passadas ajudam a prever conteúdos de interesse.
  • Tipo de conteúdo: Vídeos, por exemplo, frequentemente recebem prioridade devido ao maior potencial de engajamento.
  • Recência e frequência: Conteúdos mais novos ou postados em horários estratégicos têm maior visibilidade.

Isso tudo não quer dizer que exista uma grande conspiração, com Musk, Bezos, Zuckerberg e Gates em uma sala como marionetistas e todos nós sendo manipulados como marionetes. Os algoritmos são agnósticos em relação ao conteúdo em si, somente amplificam padrões de comportamento dos usuários. Isso pode levar à repetição de conteúdos similares, reforçando preferências existentes e aumentando a exposição a tópicos que têm maior probabilidade de engajar vocês (e eu) por mais tempo. 

O que podemos fazer em relação ao fim da realidade corpórea e ao surgimento da realidade algorítmica? Não muito: podemos reduzir nosso uso, limitar horários, bloquear certos assuntos, mas não vamos voltar ao mundo dos telegramas em protesto contra a tirania do WhatsApp. Ao invés disso, podemos nos lembrar de como a experiência não mediada pode ser recompensadora, como neste trecho de um dos meus autores e ficção científica preferidos, Kurt Vonnegut: “Eu trabalho em casa e, se quisesse, poderia ter um computador ao lado da cama e nunca precisaria sair dela. Mas eu uso uma máquina de escrever e, depois, reviso as páginas com um lápis. Então ligo para uma mulher chamada Carol, que mora em Woodstock, e digo: "Você ainda faz digitação?" Claro que ela faz, e seu marido está tentando rastrear pássaros azuis por lá, sem muito sucesso. Conversamos um pouco, e eu digo: "Ok, vou te enviar as páginas."

Depois disso, desço as escadas, e minha esposa grita: "Aonde você vai?" Eu respondo: "Bem, vou comprar um envelope." E ela diz: "Você não é pobre. Por que não compra mil envelopes? Eles se entregam em casa, e você pode guardá-los no armário." E eu digo: "Silêncio." Então desço as escadas, saio para a banca de jornal do outro lado da rua onde vendem revistas, bilhetes de loteria e material de papelaria. Preciso entrar na fila porque há pessoas comprando doces e outras coisas. Converso com elas. A mulher atrás do balcão tem uma joia entre os olhos e, quando chega minha vez, pergunto se houve algum grande ganhador recentemente. Pego meu envelope, fecho-o e vou até o centro postal na esquina da 47th Street com a 2nd Avenue, onde estou secretamente apaixonado pela mulher do balcão. Mantenho uma expressão completamente neutra; nunca deixo que ela saiba como me sinto por ela. Uma vez fui furtado lá dentro e conheci um policial para contar o ocorrido. De qualquer forma, enderecei o envelope para Carol em Woodstock. Coloquei o selo no envelope e o enviei na caixa de correio em frente ao correio. E volto para casa.

E eu me diverti muito! E digo a vocês: estamos aqui na Terra para nos divertir um pouco, e não deixem ninguém lhes dizer o contrário.

As comunidades eletrônicas não constroem nada. No final das contas, você fica com nada. Somos animais dançantes. Que lindo é levantar-se e fazer algo!”

 

Conteúdo originalmente publicado em EXAME

 


¹ https://datareportal.com/reports/digital-2024-brazil
² https://youtu.be/CI0Mxm8Hwes
³ https://www.scotthyoung.com/blog/2018/12/31/truth-superstimulus/
https://www.wired.com/1997/12/es-attention/
https://www.insidehook.com/wellness/kurt-vonnegut-advice

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