por Lilian Carvalho, PhD
O Olho de Sauron, no universo de O Senhor dos Anéis, simboliza a vigilância constante, o poder absoluto e a opressão exercida por Sauron sobre toda a Terra-média; ele é descrito como um olho flamejante que tudo vê, representando a presença ameaçadora e o desejo de controle total do vilão. Todos os pesquisadores e profissionais que trabalham com e na internet concordam que muita coisa mudou desde que ela se tornou ubíqua entre adultos, crianças e adolescentes. Mas estes divergem em dois campos: seriam os smartphones e as redes sociais o olho de Sauron simplesmente por existirem e precisamos regulamentar seu uso ou, qualquer tecnologia tem um impacto na nossa cultura e esse impacto pode fazer com que o comportamento seja, fundamentalmente, disfuncional? Nesse artigo, tento compartilhar os dois argumentos e dar vazão a uma tese pouco popular: a tecnologia é agnóstica, o que fazemos, ou não fazemos dela, é que importa.
Ultimamente, principalmente depois da publicação do livro “A geração ansiosa”, de Jonathan Haidt, o alarmismo se alastrou em pais e educadores, que acharam um culpado pelas mazelas que afligem as gerações Z (1997 a 2009) e Alpha (2010 a 2024): os smartphones. Para Haidt, a simples presença dos smartphones em um local, com uso indiscriminado de redes sociais é responsável pelo aumento de doenças psiquiátricas como transtorno de ansiedade generalizada em adolescentes, e para dar suporte às suas conclusões, mostra dados da (American College Health Association): desde 2008, o número de adolescentes com algum diagnóstico de doença mental aumentou de 20% para 45%.
Como pesquisadora e professora do mundo digital, olho para esses números com suspeição, principalmente porque crianças em toda a história do mundo cresceram sob ameaças que a presença de um smartphone. E nem precisamos viajar ao passado para procurar estas crianças: depois dos ataques de 7/10 crianças e adolescentes em Israel, que tiveram contato direto com os ataques, a prevalência de transtornos mentais aumentaram de 17% para 30%.
Me preocupa, que no Brasil e no mundo, estejamos criando leis com o intuito de proibir o acesso de smartphones para as crianças e adolescentes baseados em um pânico moral que, aparentemente, não resiste ao mínimo escrutínio.
De qualquer forma, o mundo digital teve um impacto sobre nossas vidas, isso é inegável, mas me permita submeter uma hipótese alternativa: de que é a nossa cultura, auxiliada pelos smartphones que está mudando o comportamento dos adolescentes.
Os smartphones, que por incrível que pareça existem desde 1994, só se tornaram realmente populares a partir de 2007, com o surgimento do primeiro iPhone. Se eles já existem há tanto tempo, porque só agora os adolescentes estão sentindo seu impacto? Haidt culpa as redes sociais e a internet móvel e rápida. Eu e outros pesquisadores, como o italiano Alberto Acerbi, temos uma opinião diferente: é a cultura, estupido!
Com os smartphones, qualquer pessoa se tornou um jornalista ou, no jargão atual, “produtor de conteúdo”. Isso quer dizer que não interessa onde estejamos, ou o que estejamos fazendo, sempre haverá um olho de Sauron, malvado, vermelho, nos vigiando. Isso seria até ok se fosse só a vigilância o problema, afinal, fofoqueiras de bairro sempre estiveram se esgueirando pelas janelas por aí comentando a vida das pessoas. O problema é que esse olho que tudo vê, também cancela, humilha, envergonha.
Imagine um adolescente tentando conquistar sua primeira namorada: sempre há o risco de rejeição. Isso é normal, mas hoje, alguém que tente abordar outra pessoa, online ou na vida real, corre o risco de ser humilhado e cancelado na praça pública da internet. Uma história que é aparentemente inócua mas rolou na internet, e de uma mulher que, ao dar “match” no tinder com os pretendentes, respondia com letras de música da banda Journey e depois postava o print no seu perfil. Imagine um menino de 18 anos sendo motivo de chacota nos quatro cantos do mundo.
O melhor conteúdo já produzido por essa sanha cancelatória que a internet trouxe à tona, é a TED Talk da Monica Lewinsky. Sim, aquela mesma, “I did not have sex with that woman”. Nela, a mulher mais odiada do ano de 1997, fala sobre não só a sua, mas diversas experiências de pessoas que foram linchadas, metaforicamente, em praça pública digital. E a solução pra isso? Uma nova cultura, uma cultura de tolerância e graça na internet, na qual coisas como o print anterior seriam ignorados por nós, um comportamento déclassé, vulgar.
E a crise de saúde mental? Os adolescentes estão mesmo mais doentes? Segundo o Fórum Econômico Mundial, os adolescentes estão atrasando sua entrada no mundo adulto, conforme tabela abaixo:
| Comportamento/Tendência | Gerações Anteriores | Geração Z | Mudança ao Longo do Tempo |
| Carteira de Motorista | ~90% dos adolescentes tinham carteira no último ano do ensino médio (1970s) | ~73% tinham carteira no último ano do ensino médio (2014) | Declínio no número de jovens dirigindo, correlacionado à menor independência. |
| Consumo de Álcool | Altas taxas entre adolescentes (1990s) | Declínio no consumo de álcool entre todos os grupos etários, especialmente adolescentes mais jovens. | Queda de 59% entre alunos do 8º ano desde 1993. |
| Namoro | ~85% dos estudantes do último ano do ensino médio saíam para encontros (1976) | ~58% saíam para encontros (2014) | Declínio significativo nos relacionamentos românticos. |
| Sair Sem os Pais | Alunos do último ano saíam ~3 vezes/semana (1976) | Pouco mais de duas vezes/semana (2014) | Redução na independência social. |
| Atividade Sexual | ~54% dos estudantes do ensino médio já haviam tido relações sexuais pelo menos uma vez (1991) | ~41% já haviam tido relações sexuais pelo menos uma vez (2015) | Maior queda entre adolescentes mais jovens. |
| Trabalhos Remunerados | ~75–80% dos alunos do último ano trabalhavam por pagamento (1970s) | ~55% trabalhavam por pagamento (2016) | Adolescentes estão adiando experiências de trabalho. |
| Uso de Celular | Uso mínimo antes dos anos 2000 | Adolescentes passam ~2,5 horas/dia em dispositivos eletrônicos. | Aumento no tempo de tela. |
A minha hipótese é que, por medo da humilhação e do cancelamento, os adolescentes não tem tirado carteira de motorista, nao saem em publico, se mantem infantilizados por mais tempo pois a perspectiva de sair no mundo, e esse mundo pode ser digital ou real, apresenta um risco social real, para o qual suas mentes nao estao preparadas. Na verdade, ninguém está, e vale a pena ler o livro de Jon Ronson, Humilhado. Um dos casos mais devastadores presentes no livro é o de Justine Sacco, uma executiva de relações públicas cuja vida foi completamente destruída após publicar um tweet mal pensado antes de embarcar em um voo para a África do Sul. O tweet, que ela pretendia como uma piada satírica, foi amplamente interpretado como racista, gerando indignação global enquanto ela estava offline durante o voo. Quando aterrissou, Sacco já havia perdido seu emprego, enfrentado uma humilhação pública massiva e se tornado um símbolo do linchamento virtual. Ela descreveu a experiência como "incrivelmente traumática", afirmando que chorou até sentir que havia perdido todo o peso corporal em 24 horas e lutou contra depressão e baixa autoestima. Sua carreira promissora foi destruída, e ela se sentiu desumanizada pela mentalidade de "multidão" que parecia sentir prazer com o seu sofrimento.
O que mais me surpreende na sanha proibitória, tanto de Haidt quanto dos legisladores, brasileiros e estrangeiros, elegendo o smartphone como a fonte de todos os males, e que Haidt escreveu várias vezes sobre como uma cultura que tem como hobby a humilhação pública não pode ser saudável. Ele chama esse esquema, presente na teoria da terapia cognitivo-comportamental, de leitura de mentes, e temos a supor as piores intenções das outras pessoas. Para superar esse comportamento, essa cultura que temos hoje, que tenho que concordar, e altamente disfuncional, Haidt mesmo sugere que superar esse esquema requer adotar uma postura mais generosa e supor boas intenções nas ações e palavras dos outros. Essa abordagem ajuda a reduzir conflitos desnecessários e promove interações mais saudáveis, especialmente em ambientes polarizados. Ao desafiar essas suposições automáticas, conseguimos transformar o olho de Sauron em olhos mais empaticos e tolerantes, e construir uma comunicação mais empática e racional. Na internet e na vida real, sem precisar proibir nada.
¹ Haidt, J. (2024). The anxious generation: How the great rewiring of childhood is causing an epidemic of mental illness. Penguin.
² Levi-Belz, Y., Groweiss, Y., Blank, C., & Neria, Y. (2024). PTSD, depression, and anxiety after the October 7, 2023 attack in Israel: a nationwide prospective study. EClinicalMedicine, 68.
³ https://www.telefonica.com/en/communication-room/blog/first-smartphone/
⁴ https://www.boredpanda.com/funny-tinder-nightmares-messages/
⁵ Lewinsky, M. (2015, March). The Price of Shame.” TED Talk.
₆ https://www.weforum.org/stories/2017/09/this-40-year-study-shows-us-whats-different-about-gen-z/
₇ Ronson, J. (2018). Humilhado: como a era da internet mudou o julgamento público. Editora Best Seller.